Refazer um piso de madeira é simples, teoricamente. Primeiro, é preciso lixar o sinteco antigo, até expor a madeira. Em seguida, o pó deve ser aspirado. Mistura-se o sinteco ao catalisador e aplica-se a primeira demão. Após 24 horas, aplica-se a segunda. Mais 24 horas, e o piso está pronto, novo em folha. Na prática, porém, não é tão simples quanto parece. Principalmente quando não se tem experiência nem o maquinário apropriado.

O projeto de refazer o sinteco de quase 300 metros quadrados de tábuas corridas surgiu da constatação de que seria impossível limpar satisfatoriamente o pavimento de casa, impregnado do pó de gesso dos moldes e das esculturas do Oliviero, o antigo inquilino, bem como do susto com o orçamento estratosférico que nos foi apresentado por uma empresa do ramo. A Marília meteu na cabeça que fare da noi seria a única solução, e lá fomos nós à loja de material de construção, do outro lado da cidade, comprar lixas e lixadeira. 

Na primeira meia hora lidando com a lixadeira manual, normalmente utilizada em carpintaria, percebemos que seria impossível fazer todo o piso sem ajuda. O Welton e o Everton, amigos e anjos da guarda, que nos estavam ajudando com a pintura das paredes e com outras tantas reformas, juntaram-se à equipe do sintecão. Assim mesmo, o trabalho não avançava. Precisávamos de uma lixadeira profissional, grande, e rápido. 

Dizem que quem tem boca vai a Roma e que a Fortuna sorri para quem está atento. Conversando de manhã com o Pino, dono da pousada onde estávamos hospedados - instalar-se em casa era, àquela altura, impossível -, descobrimos que também era proprietário de uma loja de parquet. No mesmo dia, emprestou-nos a tão almejada lixadeira, forneceu-nos o sinteco e o catalisador e explicou-nos como misturar os produtos e aplicá-los. Combinamos que o Everton seria o chefe da equipe - o "homem-sintecão" (na foto, com as geniais joelheiras) -, tendo em conta sua experiência prévia como marceneiro.  

Em dois dias concluímos a etapa de lixar. Na noite do segundo dia, aspiramos a casa toda. De madrugada, misturamos o sinteco e o catalisador e passamos a primeira demão dos produtos. No dia seguinte, a surpresa...

Ao abrirem a porta, a Marília e o Everton notam que o chão está brilhando mais do que deveria. Passam o dedo numa das tábuas rentes à porta. Constatam, lívidos, que o sinteco não havia secado. A casa cai. No minuto seguinte, chegam: o técnico da TIM, para instalar a internet; o ferreiro, para arrumar um corrimão; o vizinho, para pedir um favor; e o Mário, o porteiro, para saber quais são as novidades. "As piores possíveis", diz Marília, sentando-se, o rosto exausto entre as palmas da mão. O Everton roça o queixo com o indicador e o polegar, em busca de remédio. Os demais partem de fininho. 

A solução foi ligar para o Pino. O diagnóstico, deu-nos de imediato: havíamos errado a mistura dos produtos, mesclando sinteco com sinteco em vez de sinteco com catalisador. O prognóstico, admitiu, era uma incógnita: teríamos que passar nova demão, apenas de catalisador... e... rezar para que secasse.

Graças à garra do Everton e a nossa reza braba, deu certo! Seca a primeira demão, aplicamos a segunda. E fez-se o chão (com todas as particularidades e imperfeições que fazem dele a manifestação do nosso espírito e esforço).